Adotando uma Mentalidade Peregrina

Adotando Uma Mentalidade Peregrina

O que você faria se tivesse cinco meses para se preparar para uma jornada de superação e autoconhecimento?

Esta seria uma viagem sem volta e de muito aprendizado. Afinal, nunca voltamos iguais ao que éramos no início da viagem.

Sua duração seria de no máximo 60 dias, com 900 km de percurso, a ser percorrido a pé ao longo do Caminho de Santiago, no norte da Espanha! Detalhe, a mochila só deveria ter o essencial, pois seria carregada por um(a) peregrina(o)…

Este “cenário” hipotético tornou-se real em minha vida em março de 2013, tão logo meu bilhete aéreo foi comprado!

Depois de concluída a compra, eu já me perguntava: E agora, o que fazer? Por onde começar?

A resposta óbvia, veio em seguida, PELO PRIMEIRO PASSO!

Comprei minhas botas e logo percebi que teria que APRENDER A ANDAR, MAS COMO PEREGRINA.

Eu precisava ser coerente em minha forma de pensar e agir, entrando nessa nova “personagem”! Assim comecei a desenvolver uma mentalidade peregrina intuitivamente…

Eu estava prestes a embarcar numa jornada que jamais tinha vivido antes. As circunstâncias e a forma do caminhar eram mais específicas, conscientes e muito menos “automáticas”.

Me preparar passou a ser uma urgência, mesmo sabendo que as surpresas fazem parte do caminho da vida!

A certeza de que “o caminho só se faz caminhando” logo me jogou para frente!

Adotei uma rotina criativa e prática.

Li muito, ouvi palestras e depoimentos, conheci peregrinos mais experientes e assim pude ter uma ideia do que me esperava ao longo de minha jornada.

Tive clareza sobre o que eu queria nesta empreitada (identificando também o que eu não queria).

Sentir e praticar a liberdade era fundamental. Meu propósito nesta meditação em movimento era autoconhecimento e desconstrução!

Minha atitude e pensamento positivo passaram a ser o meu principal combustível, gerando firmeza e coragem para me manter em movimento rumo a Santiago, mesmo estando ainda no conforto da minha casa!

Minha preparação física acontecia em paralelo e intensamente!

Esse movimento interno acabou sendo uma espécie de preparação emocional. O que permitiu o ampliar de meu campo de visão diante dos desafios enfrentados por outros peregrinos. Eu me imaginava diante das adversidades, buscando novas saídas e soluções possíveis a serem adotadas. Este ensaio mental passou a ser uma espécie de academia, que gerava mais segurança e muito entendimento sobre as situações reais do caminho.

Aceitar que as SURPRESAS fazem parte do caminho foi um passo muito importante.

Hoje me arrisco a dizer que muitos momentos mágicos ocorreram a partir dos imprevistos e surpresas.

No dia 01 de agosto, na pequena cidade de Saint Jean PiedduPort, dei minha primeira passada como peregrina de verdade!

A travessia dos Pireneus serviu para confirmar meus objetivos diante desta jornada. Uma coisa era certa: eu não queria me prender aos números (dias, quilômetros ou distâncias).

Meu caminho já tinha uma direção previsível, com setas amarelas até Santiago. Porém, todo o resto passava a ser um mistério! Aceitar a imprevisibilidade do porvir é fundamental para quem faz o caminho!

Estar aberta a novas experiências e não ter o que prever torna o foco no AGORA bem mais simples e real!

Diante de um mar de novidades, não se pré-ocupar com o que vem pela frente torna se um enorme fator de motivação, especialmente nos momentos de maior cansaço, desconforto, estresse físico ou emocional.

Sim, os momentos de sombra ou de baixa energia fazem parte do caminho, mas é mais prático lidar com eles por demanda, pois o contexto só pode ser sentido ou vivido ali na hora(jamais previsto)!

Com isso me foquei na intenção de encontrar o meu ritmo. Sem pressa fui me aclimatando, percebi os sinais de meu corpo, segui minha intuição, senti a natureza e interagi com os locais e peregrinos quando meu coração sinalizava.

O clima de solidariedade mantida entre os peregrinos e a partilha dos alimentos, sobretudo, nos remete a uma irmandade singular. A acolhida aos peregrinos e entre nós era algo incrível!

Hoje se pensarmos na vida moderna e urbana esta fraternidade é rara, beirando a utopia.

Algo me jogava para frente com uma enorme força e tranquilidade.

A medida que eu ia avançando, eu simplesmente me habituei a incerteza diária que se apresentaria em meu caminho entre a partida de um albergue pela manhã e a chegada a um novo porto seguro a tarde.

Ter diariamente um novo cenário para interagir, uma nova cidade para aportar, novas pessoas para conhecer e compartilhar o espaço tornava a experiência mais recente cada dia mais intensa!

Eu sentia a cada dia como se uma nova camada de tinta cobria a história da minha vida!

Assim uma “versão” mais recente de mim mesmo se apresentava a um novo peregrino que chegava e que partia rapidamente! Me ouvir era curioso!

Eu estava feliz com tanto dinamismo e a intensa oportunidade de autoconhecimento, crescimento e aprendizado.

Cheguei a Santiago dia 18 de setembro. Porém segui até Finisterra, pois sentia que algo ainda tinha que ser finalizado!

A chegada ao mar foi a coroação desta maravilhosa jornada!

Cheguei ao marco ZERO, com a certeza de que posso iniciar novos caminhos tranquilamente, pois tudo é possível se nos determinamos a agir…

Adotando uma Mentalidade Peregrina

Peregrina do Caminho de Santiago de Compostela e observadora de aves, cultiva a atenção ao detalhe e a paixão pela natureza. É turismóloga de formação e aventureira de coração! Por treze anos atuou em variados segmentos no turismo, trabalhando como agente de viagens e guia de turismo, onde desenvolveu a habilidade em planejar , lidar com logística de viagem e com viajantes de variados perfis. Hoje trabalha com Assessoria & Coaching para viagens de transformação

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *